Olá caros leitores,

Após a leitura do artigo “My life as the grandma guildmaster of Ultima Online Forever”, originalmente publicado no site pcgamer.com decidimos trazer uma tradução do seu conteúdo aqui para o TibiaBR. Acreditamos que tanto o Tibia quanto Ultima Online compartilham de muitas semelhanças em relação à comunidade, o jogo e a sua mecânica, por isso pensamos que nossos leitores se relacionarão muito com a história compartilhada neste artigo.

Esperamos que goste, tenha uma boa leitura!

Aqui nos Estados Unidos, eram 3 horas da manhã, mas não tenho ideia de que hora era na Suécia, onde morava meu amigo. Ele também não se importava. Ele estava bêbado e triste e precisava de um ombro para chorar, mesmo que aquele ombro estivesse do outro lado do mundo. Ele queria morrer. Eu não queria que ele morresse. Então, durante três horas, falei com ele até que ele desmaiou e eu pude ouvi-lo roncando pelo fone de ouvido.

Não foi a primeira vez que falei com um membro da minha guild. Em filmes e desenhos animados, os guild masters de MMO ou GMs, são muitas vezes retratados como um homem barbudo de 30 anos que vive no porão da sua mãe tomando refrigerante e comendo doritos. Eles normalmente são imbecis e se encaixam no estereótipo desatualizado de um nerd que grita para a tela do computador, cercado por dois ou três monitores e milhares de dólares em equipamentos. Não sou nenhuma dessas coisas, mas, nos últimos cinco anos, administrei uma guild com mais de 100 membros em Ultima Online, um MMO que jogo há quase duas décadas.

Sou uma avó de 50 anos, e uma jornalista premiada com um trabalho respeitável em um jornal local. Passo meus dias escrevendo histórias sobre a cidade em que vivo, dizendo às pessoas o que o governo local faz ou quem foi preso na noite anterior. Meu PC tem nove anos e roda Windows Vista no canto da minha sala. Nada em mim é “gamer”, mas todas as noites me sento no meu computador, abro a versão clássica do Ultima Online, e início meu segundo trabalho.

Uma vida em Sosaria

Alyssa Schnugg, jogadora de Ultima Online.

Em 1998, meu filho tinha apenas 11 anos e frequentava um programa pós-escolar administrado pelo departamento de polícia local. A internet ainda era uma tecnologia nova, mas estava se tornando cada vez mais comum na maioria das casas. Um dia meu filho chegou em casa e perguntou se poderia comprar um jogo novo para o computador, um que os policiais haviam mostrado. Depois de gastar 30 dólares no jogo e concordar com uma taxa de assinatura de 12 dólares por mês, meu filho começou a jogar UO. Ele passou a maior parte do restante daquele ano tentando me convencer a “criar um personagem”.

Minha experiência com jogos nesta época era com arcades quando adolescente e jogando Tetris, mas eu tinha que admitir, UO parecia divertido. Não era como outros jogos que eu tinha visto. Não havia um fim, nenhum monstro final para vencer. Você poderia ser um guerreiro ou um mago. Você poderia ser um alfaiate ou um ferreiro, ou um domador de animais que levava grandes dragões para ajuda-lo a matar monstros. Você poderia ter uma casa para decorar.

Mas o que realmente chamou a minha atenção foi que você não jogava sozinho. Pessoas de todo o mundo jogavam UO. Em 1998, eram mais de 100 mil jogadores. Acabei cedendo e criei um personagem chamado Temptress Lydia. Ela era uma grande espadachim. Logo entrei em uma guild e fiz amizades com pessoas de todo o país e além.

Sendo uma mãe solteira e com três filhos na época, eu estava sozinha. UO me deu uma vida social, permitindo-me ter uma interação adulta em casa enquanto meus bebês dormiam.

Guild of the City of Trinsic

Os anos se passaram e tudo aconteceu. Meu filho cresceu e passou a jogar outros jogos. Eu continuei jogando UO, na maior parte do tempo em servidores criados pelos próprios jogadores – cópias do jogo original executadas em servidores privados que não eram hospedados ou sancionados pela empresa que possuía o UO na época. Eles eram de graça e permitiam que eu e meus amigos explorassem muitos servidores novos. Na época, vários dos meus amigos não estavam satisfeitos com a direção do UO original. Os servidores alternativos eram passageiros e muitas vezes não duravam mais que um ano, mas permanecíamos ali até o servidor desaparecer quando então passávamos para o próximo. Continuei jogando por vários anos, fazendo pausas prolongadas aqui e ali.

Em dezembro de 2012 eu tinha 45 anos e já era avó de duas criancinhas (hoje esse numero cresceu e estou com cinco netos). Minha filha trabalhava a noite e eu cuidava dos bebês para ela. Estava solteira na época e havia me mudado recentemente para uma nova cidade. Por isso eu não tinha muitos amigos, e a noite precisava estar sempre em casa por causa das minhas netas.

Quando um amigo antigo me enviou um e-mail, falando sobre um novo servidor alternativo chamado Ultima Online Forever, pensei, que diabos. Baixei e comecei a jogar novamente. O servidor tornou-se popular rapidamente – foi criado para imitar o UO original antes de ter mudado tão drasticamente, e aqueles bons tempos ainda ocupavam um lugar especial em muitos corações.

Naquela época, Ultima Online tinha apenas um continente e os conflitos Player vs Player eram uma grande parte do jogo. Enquanto estivesse matando monstros poderia se surpreender com um jogador “red”, um assassino, e acabar como um fantasma, com seus itens roubados do seu cadáver. Isso adicionava elementos de riscos no jogo, mesmo que pudessem ser brutalmente frustrante.

Em 2000, a Origin, o desenvolvedor de Ultima Online, decidiu se curvar à vontade de muitos de seus assinantes, e o mundo de Sosaria foi dividido em duas facções: Trammel e Felucca. Em Trammel, você estava seguro dos jogadores red. Sem riscos, ou recompensas. Surpreendentemente, depois de mudar de mãos algumas vezes, o UO original ainda está online e ainda tem assinantes suficientes para se manter online. Mas muitos de nós preferem servidores alternativos de versões antigas como o Ultima Online Forever.

Comecei a jogar no Ultima Online Forever apenas cinco dias após o lançamento, e muitos dos meus antigos amigos do jogo se juntaram a mim. Nós formamos uma guild, a The Free City of Trinsic. Eu assumi o papel de GM sem realmente entender o trabalho na época, e para uma guild do nosso tamanho, era realmente um grande trabalho.

A vida de um guildmaster

Eu jogo muito pouco, apenas alguns dias a noite durante a semana, em vez disso, passo a maior parte do tempo recrutando jogadores que querem se juntar à guilda, respondendo suas perguntas e expondo minhas expectativas como membro da guild – sem matar, roubar ou dar KS em companheiros da guild; seja respeitoso; e diverta-se. Mantenho uma planilha no Google com todos os membros da Guild, onde tenho seus nicks do Discord anotados e o registro de quando entraram para a guild. Planejo eventos, desde caçadas em grupos até torneios para encontros sociais no jogo.

Sou mãe, médica, terapeuta, amiga. Eu tive membros de confiarem em mim coisas que nunca contaram a ninguém. Tenho membros que lutam contra a depressão, alcoolismo e abuso de drogas. Tenho membros do sexo feminino que lidam com o assédio sexual de jogadores masculinos. Já tive homens que me perguntaram como salvar seu casamento. Eu costumo dizer para não jogar muito UO.

Tive membros que me enviaram flores quando fiquei doente e biscoitos na época de natal. Quando um dos membros estava doente, outros lhe enviaram dinheiro para ajudar a pagar as contas médicas.

Eu lido com membros briguentos e dramáticos. Vi casamentos florescerem de relacionamentos que começaram no jogo, assim como vi casamentos se desintegrarem. Já participei de um bate-papo por voz tentando consolar um homem que perdeu dois filhos para suicídio no mesmo ano.

Guild City of Trinsic.

Os membros da minha guild são pais, mães, avós e, em alguns casos, estudantes universitário que começaram a jogar Ultima Online Forever porque se lembraram de seus pais jogando quando eram jovens. Temos membros que são técnicos de TI, médicos, advogados, entregadores de pizza. Alguns vivem nos Estados Unidos. Outros vivem nas Filipinas, Finlândia, Suécia, Alemanha, Rússia e França.

Pelo menos uma vez por semana, eu ouço o som do Discord no meio da noite com um membro da guild perguntando sobre se ser um bardo é lucrativo ou para simplesmente dizer oi.

Uma noite, um membro teve uma discussão com um outro companheiro de guild ás 3 da manhã, quando ouvi os sons rápidos provenientes do Discord. Eu li as mensagens, saí da cama e dei um sermão respeitando o fato de que algumas pessoas tinham empregos e precisavam descansar e que deveriam lidar com suas questões como adultos.

Uma guild nova focada no role playing chamada The Knights começou a jogar no UOF há alguns anos e, por algum motivo, decidiram chamar o meu personagem de Queen, e toda vez que me veem no jogo dizem “Your Majestery” ou “My Queen”. Ainda fico um pouco envergonhada com isso.

Eu acordo todas as manhãs e antes de verificar o e-mail, checo o Discord e do bom dia a todos. Então vou trabalhar e continuo conversando com meus membros da guild ao longo do dia. Chego em casa às 7 da noite, e vou logo para o jogo, trabalhar no meu segundo emprego. Recentemente, o criador de Ultima Online, Richard Garriott, visitou o UOF e fiquei lado a lado com o homem que criou o jogo que teve um impacto tão profundo na minha vida.

Guild City of Trinsic.

Meus netos às vezes sentam-se comigo e me vêem jogar. Uma pessoa de apenas 7 anos agora pode mover meu personagem ao redor da tela usando o mouse e muitas vezes gosta de conversar pelo jogo com os membros da guild, e não posso negar que isso me faz sorrir a cada vez que vejo.

Apesar de Ultima Online ser um jogo, às vezes ele me leva as lágrimas. Perdi um amigo de 10 anos, um amigo da vida real, um melhor amigo, por causa de uma discussão sobre uma decisão que fiz no jogo. A vezes em que escolho a minha guild, a vida fora do computador. Já cancelei compromissos sociais porque foi planejado um evento da guild para aquela mesma noite. Já acordei atrasada demais por que tinha ficado lidando com um membro ou simplesmente ter me divertido muito durante a noite. Eu faço isso porque gosto disso, e porque assumi o compromisso com mais de 100 pessoas e levo isso a sério.

Ultima Online tem sido uma parte importante na minha vida há quase 20 anos. Isso deu ao meu filho algo para se conectar comigo durante a adolescência, quando a maioria dos pais daria seu braço direito para ter algo em comum com seus filhos. Recentemente nós dois participamos da feira do Renascimento aqui na minha cidade e compramos coisas parecidas com as que vimos no jogo e, por apenas algumas horas, era como se estivéssemos vivendo em UO.

Minhas duas filhas também jogaram um pouco, mas nunca na medida em que meu filho e eu jogamos. Elas ainda se referem a UO como “esse jogo”, como muitos cônjuges ainda fazem. Meu filho e eu ainda jogamos juntos às vezes.

O futuro de Ultima Online Forever é desconhecido. O servidor poderia acabar hoje ou continuar por mais cinco anos. Tenho pensado em me aposentar como GM, mas ninguém parece querer o trabalho. Eu entendo o porquê. Há dias que eu me pergunto por que eu faço isso. Não tenho uma resposta, além de dizer que amo fazer, e adoro as amizades que fiz. Isso me da, um lugar para fugir por algumas horas depois de um longo dia.

No UO, sou sempre jovem e bonita. Meu nome é Skye Wolfbane e eu sou governadora da The Free City of Trinsic. Mas a idade e a experiência me ajudaram a ser uma GM bem-sucedida. A paciência é o requisito número um do trabalho. Então enquanto o UOF estiver online, e minha guild tiver cidadãos dependendo de sua GM, continuarei trabalhando no meu segundo emprego. Apenas espero que meu futuro lar de idosos tenha uma internet decente.

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Comentários
  1. Sem palavras, está senhora é um anjo de pessoa, não só uma Guild Master, mas como uma mãe para todos deste game, merece e muito ser chamada mesmo de \"Queen\". Respeito!
    sem palavras!
    Jogo Tibia desde 2003!
    Ler um depoimento assim e lembrar de amigos que já até se foram e dos velhos tempos é emocionante demais!
    Muito obrigado por trazerem este depoimento!
    Jogo Tibia a 15 anos, entre idas e vindas, e encontro meu refugio no game para esquecer um pouco as dificuldades de problemas do dia a dia.
    Eu jogo tibia em rookgaard a 10 anos. Hoje jogo em Serdebra. Uma hora acredito que consigamos juntos resolver o segredo de rook. Precisamos de um grupo ativo de 30 ou mais jogadores na ilha de rookgaard para isso.