Sejam novamente bem-vindos a mais um Passado Tibiano!

Na semana passada, começamos a nossa trajetória pelos primórdios dos cheats no jogo. Hoje, vamos dar sequência ao nosso passeio por esse submundo sombrio e analisar uma pequena, porém caótica, fase que a CipSoft teve de enfrentar antes que os bots dominassem o jogo de vez. Vamos falar um pouco do impacto que esses softwares causaram no combate direto entre jogadores, ou seja, o PvP.

Boa leitura e divirtam-se!

Introdução

Conforme observamos na primeira parte desta série, o início da onda dos cheats foi um misto de jogadores buscando vantagens e jogadores buscando cobrir os gaps existentes nas funcionalidades que o jogo deixava de oferecer, como o controle de iluminação ou uma fila de espera para acessar o jogo. Conforme vimos, ao mesmo tempo que a CipSoft buscou impedir o primeiro grupo de trapacear, também buscou incentivar que jogadores honestos deixassem de correr riscos desnecessários, fornecendo funcionalidades que se sobrepunham aos softwares, garantindo a segurança e o bem estar desses jogadores.

Infelizmente, nos anos seguintes, a coisa começou a tomar proporções que a CipSoft jamais imaginaria. Uma vez que as funcionalidades mais básicas dos programas de trapaças foram cobertas pela própria empresa, o foco dos trapaceiros se tornou, majoritariamente, garantir vantagens cada vez mais absurdas através de softwares externos.

Hoje o nosso foco é em um software que surgiu por volta de 2006, e causou um completo caos no PvP da época. Mas antes, precisamos falar da nova TekPix de um outro cheat, que remonta a mesma época do artigo da semana passada: o multi-client.

Tibia Multi-Client

Desde o início, o Tibia sempre teve duas características muito particulares: só era permitido abrir uma única janela do jogo, e era impossível utilizar mais de um personagem de uma mesma conta simultaneamente (regra essa que prevalece até os dias atuais).

Assim, alguns cheaters conseguiram modificar o arquivo executável do Tibia com o intuito de burlar essa proteção. Assim, sites aos montes disponibilizavam para download um arquivo Tibia.exe, também chamado de Tibia MC, que substituía o arquivo original do jogo. O jogo funcionava exatamente da mesma maneira, porém, o erro ao tentar abrir uma nova janela do jogo desaparecia, e o jogador estava livre para utilizar vários personagens, ao mesmo tempo, em um mesmo computador.

Apesar do software modificado, os servidores do Tibia ainda rejeitavam o acesso de dois personagens simultâneos em uma mesma conta, porém, isso não deteve os trapaceiros. Como, na época, a grande maioria era Free Account, não havia motivos para hesitar em criar um novo personagem, em uma nova conta, para usufruir desse cheat.

As utilidades para esse recursos foram diversas, e incluíam treinar skills de dois personagens ao mesmo tempo ou evoluir um personagem enquanto produzia runas em um segundo.

Futuramente, o lançamento do Tibia Flash Client criou uma brecha nessa regra, visto que abrir dois clientes (um convencional e um no browser) se tornou completamente viável sem qualquer tipo de modificação nos arquivos do jogo. A regra foi revista e relaxada.

Não bastando os benefícios ilícitos que a ferramenta já fornecia, alguns anos mais tarde, uma guild conseguiu ver uma oportunidade nesse recurso que, combinado com uma estratégia e um novo software, conseguiram criar um cheat realmente catastrófico: o Magebomb.

Magebomb – A estratégia

Antes de falarmos a respeito da trapaça, vamos entender exatamente o que foi o Magebomb. O que podemos ressaltar logo de cara é: o Magebomb não foi uma trapaça, mas sim uma estratégia!

A estratégia do Magebomb requeria um time com vários magos (sorcerers ou druids), e era executada da seguinte maneira:

  • Vários magos se posicionavam em um determinado local isolado, cercando uma pequena área, e se desconectavam do jogo;
  • Um membro do time permanecia online e ia atrás de um alvo, normalmente mais forte que seu próprio personagem;
  • O jogador atacava o alvo, que quase certamente revidava (afinal, era a oportunidade de matar um jogador mais fraco e obter seus itens);
  • O jogador então saia correndo para o local onde seus colegas haviam saído do jogo;
  • Quando o alvo chegava no centro do cerco criado pelos personagens do grupo, o jogador avisava os demais através de um serviço de mensagens (como o MSN, na época);
  • Todos os jogadores entravam com seus magos no jogo e bombardeavam o alvo com Sudden Death Runes, o que o matava instantaneamente.

Essa estratégia letal foi muito utilizada nos antigos servidores PvP Enforced e, de fato, não havia nada de ilegal na técnica: era apenas uma estratégia para encurralar alvos (o que faz parte do PvP) utilizando o elemento surpresa. Não bastando isso, não era uma técnica realmente fácil de se aplicar, afinal, requeria um time numeroso e uma grande organização.

Mas se a aplicação dessa técnica era tão difícil, como isso se tornou um problema? Afinal de contas, eram necessários vários magos capazes de utilizar Sudden Death Runes, fora toda a organização.

Magebomb – A catástrofe

Antes de falarmos do cheat propriamente dito, vamos entender uma particularidade da época. Em 2006, runas e magias possuíam um funcionamento completamente diferente dos dias atuais.

Na época, as runas não possuíam um requerimento de nível para serem utilizadas, mas de magic level. No caso, Sudden Death Runes podiam ser utilizadas por jogadores nível 8, desde que possuíssem magic level 15 ou superior. Ou seja, uma tarefa muito fácil para jogadores que já trapaceavam, afinal, bastava manter o personagem online enquanto algum software, ainda que rudimentar, ficava utilizando magias até que o magic level necessário fosse alcançado. Logo, possuir personagens que cabiam nesse tipo de ataque não era exatamente uma tarefa difícil.

O problema começou quando uma guild de Dolera, chamada Pandemonium, criou o primeiro software capaz de orquestrar ataques de Magebomb. Com esse software, uma única pessoa era capaz de realizar essa técnica, sem depender de um time ou de qualquer organização. Isso tudo viabilizado através do cheat que mencionamos anteriormente, o Tibia MC.

Ao invés de montar um time, um jogador criava vários personagens, todos sorcerers ou druids, em diferentes contas, e os deixava aptos a utilizarem a Sudden Death Rune. Após posicionar e desconectar todos os personagens, o cheater aplicava exatamente a técnica detalhada acima, porém, ao atrair seu alvo para o local do ataque, o cheat entrava em ação.

O próprio software conectava todos os personagens secundários criado pelo executor do ataque e desferia, automaticamente, o bombardeio de runas que eliminava seu alvo. Após isso, o software encerrava os clientes secundários, fazendo com que todos se desconectassem segundos depois.

A prática causou um verdadeiro desbalanceamento e, pela primeira vez, a CipSoft precisou recorrer a mudanças nas regras de funcionamento do jogo para inibir a utilização do software.

A extinção dos Magebombers

O Magebomb evoluiu rapidamente, em um período em que os primeiros bots avançados começavam a aparecer, e o resultado é que vários bots independentes passaram a incluir a funcionalidade. Os últimos softwares lançados com o Magebomb incluíam recursos muito avançados se comparados com as versões iniciais, chegando ao nível de literalmente conectar os clientes secundários do jogo no cliente principal, o que permitia que as ações realizadas pelo personagem principal adaptasse o comportamento dos demais rapidamente.

Apesar do seu impacto, ele possuía uma desvantagem absurda. Diferente de outros softwares da época (ou mesmo os mais antigos), o Magebomb chamava muita atenção para si. Identificar uma automação para produção de runas poderia ser muito difícil, afinal, o jogador poderia ser honesto e estar apenas se ausentando em intervalos de minutos para que a mana do personagem era recuperada… já a identificação de um Magebomb era muito fácil, afinal, um batalhão de personagens surgindo e desaparecendo constantemente, deixando um cemitério no local em que estavam denunciava todo o esquema.

Por esse motivo, o Magebomb teve uma vida curta!

Na época em que a CipSoft combateu o Magebomb, a empresa ainda estava excepcionalmente longe de qualquer maneira de detecção de cheats, e permitir que o cheat continuasse a funcionar enquanto gamemasters ficavam encarregados de punir os infratores seria muita negligência, dado o impacto gerado pelos ataques. Assim, a CipSoft tomou medidas drásticas, mudando o comportamento do jogo e punindo severamente os trapaceiros identificados.

No dia 09 de Novembro de 2006, na versão 7.82, uma atualização foi anunciada, que serviu exclusivamente para inviabilizar o Magebomb. Desde essa data, ao se conectar no jogo, o jogador é incapaz de atacar outros jogadores por um período de dez segundos, a menos que esteja se defendendo de outro jogador que o ataque antes do término do intervalo de segurança. Assim, a utilização do software se tornou muito restrita, afinal, esse intervalo fornecia tempo suficiente para o jogador escapar da armadilha.

Junto com o anúncio da atualização, também foi divulgada a punição aplicada aos jogadores que utilizaram a ferramenta: cerca de 800 contas foram deletadas por estarem relacionadas à ataques de Magebomb. Comparado a números futuros que seriam deletados por uso de bots, pode parecer um número baixo, porém, absurdo para a época. Na ocasião, a empresa reforçou a seriedade da violação da regra que proíbe o uso de softwares não-oficiais.

Não há registros palpáveis de jogadores que ainda conseguiram performar tais ataques após o update. Ainda assim, em 26 de Junho de 2007, o lendário update 8.0 foi disponibilizado, incluindo a reformulação das fórmulas de dano e dos requisitos para a utilização de runas e magias. Uma vez que agora, além do magic level 15, passou a ser necessário nível 45 para a utilização das Sudden Death Runes, o esquema ficou ainda mais custoso para ser realizado.

Uma pequena variação do antigo Magebomb permaneceu nos bots que surgiram na sequência, porém, seu propósito era um pouco diferente. Bots de diferentes jogadores se conectavam entre si definindo o jogador responsável pelo controle da funcionalidade. Com esse controle, o jogador era capaz de enviar mensagens que eram interpretadas pelos bots dos demais infratores, fazendo com que todos mudassem de alvo de acordo com sua vontade. Apesar de não ter a mesma capacidade destrutiva do antigo cheat, o recurso foi utilizado por diversas guilds durante guerras, o que também causou um grande desbalanceamento no PvP nos anos que seguiram.

 

Até o momento, já cobrimos dois períodos que a CipSoft precisou enfrentar no que diz respeito a cheats: a fase inicial, com ferramentas mais simples e leves automações e o início da fase que levaria os cheats a proporções absurdas que tomariam nos anos seguintes. E a verdade é que o período dos Magebombs coincidiu com o surgimento dos primeiros bots avançados. E esse assunto fica para a próxima semana!

Já vivenciou um ataque desses no passado? Não deixe de comentar e nos contar a sua história!

Até a próxima!

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Comentários
  1. Lembro que em 2006 rolou comentários na lan house que na época eu ia muito onde diziam coisas do tipo "Eu tenho magebomb que tira 8k no combo".
    Saíram vários videos na época de pessoas sendo pegas com ele, principalmente no barco de Venore. Uma estratégia bastante usada era oferecer um item que o alvo estava comprando no antigo Trade Channel ou dizer que ia comprar um item que o alvo estava vendendo (não existia o Market).
    E era comum você negociar o "frete" dizendo "To em Venore, vem aqui e eu pago o barco". O sujeito ia e caia no magebomb.