Residente da colônia insular de Edron, nada me era mais afável do que a natural obediência à monarquia. Nosso governador, Daniel Alma-de-Aço, comissário do Rei Tibianus e devoto de Banor, sempre nos ensinou como é feio engajar em campanhas sem a devida autorização real. Particularmente, eu não seguia seus ensinamentos, afinal queria ter uma vida feliz – o que é quase sinônimo de aventuras.

Certa feita, retornando de uma campanha exploratória em Thais, escutei entre os marinheiros do porto de Edron o seguinte cochicho: “Ele morreu em Krailos como um guerreiro desavisado. Não imaginava que a ilha estaria infestada de ogros.” Eu não sabia o que viriam a ser ogros, contudo, para mim, só o fato de alguém ter morrido numa aventura, a tornava intrigante.

A curiosidade tomou conta de mim. Poucos minutos depois, minha mente pipocou o desejo de conhecer Krailos. Já todo equipado, fui ao Depot para enviar uma carta à minha amada: afinal, esta poderia ser a minha última expedição. Me despedi. Estaria eu sentindo pela última vez o cheiro das orquídeas do jardim de Edron? Só o tempo poderia dizer. Evadindo as fortalezas, chegava ao navio do Capitão Cavalo-marinho. Quando o comuniquei sobre meus anseios, ele riu de canto de boca e disse: “Boa sorte, Sam! Você vai precisar!”

A viagem foi tranquila. Mares calmos levam até a ilha. Ao chegar em Krailos, me senti num safári. Estava rodeado por criaturas brutas que nem se davam ao trabalho de falar. Os quadrúpedes não me causavam tanto espanto, pois de fato não raciocinavam. No entanto, os ogros possuíam um mínimo de racionalidade, e era isso que me assustava.

No meio de monstros, e não sabendo mais para onde ir, comecei a correr. Triste escolha. Quanto mais eu corria, mais eles me alcançavam. Algum tipo de magia misturada com força e pouco raciocínio lógico, os faziam querer esmagar em vez de conversar—e isso eles faziam com maestria.

De todos dessa espécie até então misteriosa, que ia aos poucos se desmistificando, o Xamã era o que parecia mais fraco. No entanto, estava sempre rodeado de Ogros Brutos e Selvagens. Ele era o chefe da tribo e guia religioso. Suas magias negras invocavam Dworcs e Terror Birds. Incomodar é o que ele sabia fazer.

Os Ogros Brutos fediam a álcool. O fedor era tão forte que bastava uma baforada para que eu também me sentisse bêbado por alguns instantes. Eles existiam em maior número em relação aos Xamãs e os Selvagens. A clava que carregavam dava medo: três ossos de Clomp saíam de seu eixo principal. Um golpe daquilo doía. E muito.

Por último, vieram os Selvagens. Em menor número do que o resto, eram os mais fortes. Sua rapidez impressionava. Como corpos tão massivos conseguiam ser tão ágeis? Algum feitiço ou encantamento os acompanhava. Uma lâmina de osso de dragão era o que pareciam carregar em cada mão. Era assustador.

Eu só via o rosto de minha dama na mente, e tinha quase certeza que não escaparia dali. De nada adiantou tanto correr. Eles me cercaram. Terminei sendo apunhalado pelas costas por uma adaga envenenada de Dworc. Minhas vistas se esmaeceram aos poucos. Fechei os olhos. No entanto, ainda tinha o sentimento de que aquele não seria o meu último suspiro de ar. E foi.

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