Autor: Gabriellk~

Revisores: Pedrinhospf; skilledfloyd


O que a lua traz consigo

Teríamos uma noite clara. Eu observava Fafnar e Suon, cálidos e vivazes, percorrendo desimpedidos um céu de profundo e límpido azul. Não havia nuvens para esconder a beleza dos sóis, assim como não haveria à noite, quando a lua pálida viria para tomar-lhes o lugar e preencher o mundo com sua claridade lúgubre.

Eu remava, velozmente. Alguns até poderiam dizer que desesperadamente, como alguém que foge de algo que lhe está à espreita. Mas a minha volta só havia o oceano, a não ser para trás, onde ficava a costa e o povoado de Porto do Norte, cada vez mais distantes à medida que eu os deixava. Eu suava, levando meus braços ao limite ao manusear os remos, sem, no entanto, descansar nem por um segundo. Pequenas ondas salgadas quebravam junto ao casco do bote, fracas e calmas, porém dando à embarcação um balançar enjoativo. Mais de uma vez encostei-me à amurada para vomitar, lamentando minha falta de familiaridade com o mar.

Logo, avistei à frente uma pequena mancha cinzenta no horizonte, e permiti-me um raro momento de alívio, pois os sóis já estavam bem adiantados em seu percurso diário, e tinha medo de não conseguir a tempo. Se a noite caísse enquanto eu ainda estivesse no mar, somente os deuses sabiam o que poderia acontecer. Alguns metros de água não o conteriam. Deveria ser por volta das cinco da tarde quando cheguei à pequena ilha. Eu a havia sondado alguns dias atrás, quando ainda dispunha de tempo.

Era um pedaço de terra insignificante, sem nome. Deveria ter algumas centenas de metros, e havia uma pequena praia de areia fofa no sul. Foi lá que desembarquei, amarrando o bote em um toco velho e queimado. Mais ou menos no centro da ilha havia uma antiga e decrépita cabana de pescador, há muito abandonada. A madeira da casa estava apodrecendo, mas eu encontrara a porta em um estado relativamente bom. Em meu bote, eu trazia um martelo, alguns pregos, tábuas fortes de madeira, outra corda grossa de navios e algemas de aço conseguidas há muito tempo nas prisões de Carlin. Levei todos esses utensílios para a cabana.

A porta rangeu ao ser aberta, revelando um interior escuro e úmido. O cheiro de sal e de madeira podre encheram minhas narinas. Uma velha rede de pesca estava jogada a um canto, quase decomposta. Antes de fechar-me dentro do casebre, dei uma última olhada para trás. O bote ainda encontrava-se parado na praia, mas o que me deixou desconfortável foi ver que ainda era possível distinguir, ao longe, a linha cinzenta da costa de Porto do Norte. Julguei até mesmo perceber algumas construções, muito indistintas. Havia andado muito menos do que gostaria.

Fechei a porta atrás de mim, encerrando a casa em uma escuridão quase completa, exceto pelos pequenos raios de sol que invadiam o interior, através das fendas na madeira. Havia uma tranca de ferro, felizmente ainda em bom estado. A porta trancou-se com um clique. Imediatamente, comecei o trabalho de vedar a porta com as tábuas de madeira. Após o que me pareceram vários minutos de cansativo martelar, tinha em minha frente uma porta completamente bloqueada. Os raios de sol dentro da cabana já se tornavam mais escassos.

Em seguida suspirei e comecei a amarrar meus pés e pernas com a grossa corda de navio. Enrolei-a em minha volta da melhor forma que pude, terminando no nó mais apertado que fui capaz de atar, próximo à cintura. Não mais podia mover as pernas, e deixei-me cair sentado ao chão. De um bolso da camisa, retirei uma chave de ferro. Joguei-a a um canto distante da cabana, e em seguida tranquei minhas mãos com as algemas de ferro. E então nada mais pude fazer, a não ser esperar.

Enquanto as horas passavam, eu me perguntava se tinha feito o suficiente. As amarras eram fortes, mas seriam o bastante? As horas passadas naquela cabana solitária foram horríveis. Nada se ouvia, exceto o quebrar das ondas ao longe, e minha própria respiração, que se tornava mais ofegante a cada minuto. Os raios de sol afinavam-se cada vez mais, se tornando mais fracos, mergulhando a cabana na mais completa escuridão. Eu nada via em minha frente, mas sabia que os sóis já deveriam estar se pondo no horizonte; e a lua brilharia em seguida, cheia e prateada…

Eu já sentia o vazio, o terrível vazio que só a fome é capaz de provocar, e a raiva que lhe era inata começar a crescer dentro de mim, dominando-me, subjugando toda a minha vontade. Antes, bastava eu não olhar para a lua luminosa, manter meus olhos cravados no chão enquanto vagava pelas noites de lua cheia, que ele não viria. Agora, bastava a mera presença, o simples conhecimento de que o astro encontrava-se nos céus, para acordá-lo… As amarras afrouxavam-se, mas não pareciam ceder.

***

A fera estava inquieta e absurdamente raivosa. Acordara para encontrar-se amarrada sem poder se mover. Debatia-se loucamente, uivando a todo o momento, e o nó da corda afrouxava-se cada vez mais. Queria sair dali, e queria rápido. Sua fome era insuportável. Tentou roer as algemas de ferro, mas elas eram muito fortes. Soltou um rugido frustrado. No entanto, seus esforços não foram em vão, pois o ferro ficara mais fraco onde o mordera. Com uma força descomunal, rompeu as algemas no centro. Após isso, libertar-se das cordas foi fácil.

O lobisomem levantou-se, zanzando pela cabana, procurando algum lugar por onde escapar. Viu a porta bloqueada, e lançou-se sobre ela com toda a força. A madeira era forte, e não cedeu. No entanto, a cabana era velha e podre, e as paredes romperam-se após alguns minutos de peleja. Alguns resquícios em sua memória eram de um lugarejo que existia após o mar. Ele viu algumas luzes, fracas e distantes. Ignorando completamente o bote, lançou-se ao mar. A água gelada o incomodava, e o sal entrava pelos olhos, deixando-os vermelhos e irritados. Mas era bom nadador, e logo chegou à costa.

A luta contra o confinamento o cansara, mas não o suficiente. Correu, tão sorrateiro quanto mortal, para as casas dos moradores. Uma porta de madeira foi quebrada em um golpe, com um ruído que cortou a noite silenciosa. O lobisomem farejou o interior da casa, sentindo o delicioso cheiro da carne.

No céu, a grande lua iluminava a cena, indiferente à presença anômala da criatura naquelas bandas. O passar das horas foram empregando a seu brilho uma tonalidade cada vez mais avermelhada e anormal. Aquela noite alongou-se por muito tempo, e os sóis demoraram a chegar.

 


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Abraços, e até a próxima edição dos Contos Perdidos!

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